Palavras-chave: Ciência Geográfica, Teoria e Método, Princípios Geográficos, Freidrich Ratzel.
Introdução: a “legalização” da Geografia no contexto da Ciência Moderna
A ciência moderna, sempre baseada no rigor dos procedimentos e na busca da verdade/explicação irrefutável dos fatos, assentou-se sobre dois suportes principais, o filosófico e o científico propriamente dito. O primeiro suporte é definido como estrutura filosófica, constituindo-se de princípios, leis, categorias universais, que norteiam a reflexão das práticas, a racionalização das ações. O segundo suporte é a estrutura científica, vista como um sistema ordenador dos conhecimentos, composto por três componentes que agem reciprocamente: os conhecimentos empíricos, a obtenção/sistematização metódica dos conhecimentos e os princípios teóricos. Segundo GOMES (1991. p.85), ao se referir à ciência moderna,
A ciência como um campo de conhecimentos teóricos, sendo as leis científicas o núcleo científico do sistema teórico. A partir do exame analítico dos fatos da natureza e da sociedade, tomados em conjunto, de forma objetiva, o interessado na busca do saber científico (pesquisador, cientista social, etc.) procurará conhecer as ações das leis que regem os fenômenos contidos nos fatos e deverá agrupá-los num sistema ordenado.
Desta forma, as leis científicas refletem as interações, isto é, os nexos essenciais e necessários existentes entre os fenômenos que estruturam um conjunto maior (um todo sistêmico) que, em Geografia, denominamos de ‘fato geográfico’, cabendo aos geógrafos (neste caso), analisar/refletir a realidade objetiva do mundo da natureza e da sociedade numa ‘totalidade’. A observância de uma determinada lei ou princípio deve efetuar-se sempre em conexão entre as demais leis, para que aja a compreensão do todo resultante das partes em análise.
A Geografia Clássica, determinada pelos princípios geográficos, levava em conta este processo combinatório, onde o conhecimento geográfico era construído e balizado de forma crescente, até assumir valores mais absolutos, portanto, mais verdadeiros e irrefutáveis: o conhecimento geográfico precisava ser metodologicamente homogeneizado ou “legalizado” sob a égide dos princípios próprios da Geografia, para que a sua contribuição fosse verdadeiramente científica, ou seja, as estruturas e processos das ciências naturais e exatas eram os delineadores do caráter científico do conhecimento, servindo como critérios gerais/universais de “cientificidade”.
A ciência moderna exigia uma ordem geral racional para o reconhecimento e o status de “ciência”. Dentro desses “padrões” científicos, a Geografia em seu processo de sistematização e, principalmente, de consolidação como área autônoma de conhecimento, produziu seus princípios ou leis que a identificariam de forma inequívoca no contexto científico. Os princípios que nortearam a Geografia Clássica foram os seguintes: o Princípio da Extensão, o Princípio da Analogia ou Geografia Geral, o da Causalidade, e o Princípio da Atividade. Estes formaram a base “legal” da Ciência Geográfica. Tais princípios foram idealizados por grandes geógrafos, tais como Ratzel, Vidal de La Blache, Carl Ritter, Alexander Von Humboldt e Jean Brunhes. Porém, esta pesquisa está em desenvolvimento e, por isso, tratará, neste momento, apenas da compreensão do Princípio da Extensão.
As Circunstâncias Históricas e a Construção dos Princípios
Para a compreensão mais ampla dos referidos princípios, faz-se necessário uma breve contextualização histórica dos momentos em que os citados geógrafos viviam. As circunstâncias históricas de elaboração dos princípios geográficos será continuamente situada, podendo-se, desta forma, ter uma compreensão maior da relação dos objetos metodológicos de estudos da geografia de cada autor, e da importância dos princípios em si. [É nesta temática de contextualização dos fatos, e na compreensão das bases epistêmicas relacionadas aos aspectos metodológicos da geografia, que se dá o desenvolver da ciência geográfica e do saber científico geográfico]. Para tanto, será utilizado o quadro abaixo, retirado de Horieste Gomes (1991, p.95).

As grandes escolas detentoras do saber científico da ciência geográfica clássica foram as escolas alemãs e francesas, nelas grandes formalizações de princípios e objetos de estudo da geografia se concretizaram, sucedendo o status científico da geografia.
Era a época do surgimento e consolidação dos Estados-Nação, do expansionismo colonialista europeu (neocolonialismo, séculos XVIII - XIX) principalmente do Estado Alemão e do Francês, onde a ciência era utilizada para viabilizar e legitimar as dominações de outras nações e povos. E o conhecimento geográfico era fortemente usado como instrumento ideológico de dominação. Como toda ciência na época, a Geografia dizia-se “neutra”, era essencialmente descritiva, e tinha como objetivo maior a catalogação ou inventariação das paisagens/recursos naturais e hábitos culturais de seus povos. Os geógrafos eram diretamente ligados à estrutura governamental e seus trabalhos direcionados às necessidades de ampliação territorial.
Ratzel: do Estado Alemão ao Princípio de Extensão
No último quartel do século XIX, a confederação germânica, vivia um momento entre os ideais revolucionários e a disputa pela hegemonia dentro da confederação. Esta disputa era travada pelo império Austríaco e o Reino da Prússia, que logo em 1866 se confrontaram na guerra civil alemã, onde saía vencedora a Prússia, e dando um grande avanço para promover a unificação do estado, mesmo dividindo a confederação germânica em Alemanha do Norte e Estados do Sul, lembrando que o norte era organizado a partir de uma política militar, e o sul era ligados aos ideais democratas.
Mas, em 1871 com o fim da guerra Franco-prussiana, soma-se mais uma vitória do primeiro-ministro prussiano Otto Von Bismarck, que conquista não apenas o território Alsácia-Lorena, mas é quando ocorre a tão esperada e buscada unificação da confederação germânica, e se constitui o “novo estado”. Logo toda a Alemanha, repassa ao seu corpo, a grande influência militar bismarckiana. Naquele momento histórico, a ascensão dos ideais nacionalista-chauvanistas se entrelaçavam com o início do capitalismo, dos avanços da industrialização, da revolução industrial, solidificando o período neocolonial. A Alemanha “Bismarckiana”, tem como alicerce um projeto imperial expansionista de desenvolvimento.
Neste momento histórico, Ratzel, aparece como um grande intelectual e explicador dos própositos do líder de sua nação. Conforme MORAES (2005, p.67), “A geografia de Ratzel foi um instrumento poderoso de legitimação dos desígnios expansionistas do Estado Alemão recém-constituído”, sendo de grande importância entender a geografia ratzeliana para buscar melhor compreensão do espaço, e se ter uma ferramenta de grande apoio para expansão territórial. A existência de uma sociedade está representada em território, ou seja, para Ratzel a perda de território aponta a decadência de uma sociedade, e para a sociedade progredir, avançar, ela precisaria conquistar novas terras (RATZEL, 1990, p.180), com base nessa idéia, os ideais bismarckianos são justificados pela geografia ratzeliana.
A Geografia de Ratzel
O momento histórico até aqui descrito e a geografia ratzeliana, estão intimamente interrelacionados. E neste contexto histórico que Friederich Ratzel, elaborou uma geografia funcionista ao território, intimamente ligada às relações de poder, de domínio da terra, retratando a figura do “Estado”, em outras palavras quando a sociedade se organiza para defender o seu território se transforma em Estado.
Vale ressaltar que o expansionismo, era o grande modo de pensar/agir dos reinados daquele época, onde a relação com o “a propriedade da terra”, servia para auto-reconhecimento imperial. Justificando essas colocações, segundo MORAES (2005. p.70),
Ratzel elabora o conceito de ‘espaço vital’; este representaria uma proporção de equilíbrio de uma dada sociedade e os recursos disponiveis para suprir suas necessidades, definindo, portanto, suas potencialidades de progredir e suas premências territoriais.
Entendendo que a busca pela a ampliação do território nacional alemão para progresso social, se justifica no conceito de espaço vital da geografia ratzeliana, então concordamos com CAMARGO (2005, p.96),
Na concepção ratzeliana, como o espaço da terra nunca cresce, ou seja, é finito, ocorre um grande paradoxo, que se origina da luta por espaço vitais, pois, as nações se desenvolvem economicamente e, logo, tecnologicamente, tendem a querer ampliar seus territórios.
Ratzel pensava Geografia, a partir das ideias expansionista de sua época, nesse pensamento o conceito de território é fundamentalizado. O geógrafo, Paulo César da Costa Gomes, em seu livro “Geografia e Modernidade” (1996, p.188), fala sobre Ratzel e a relação recíproca do homem com a terra, no seguinte texto:
A análise de Ratzel descrevia vários gêneros de dinâmicas territorais, tentando traçar um quadro geral ou um modelo para essas dinâmicas. Ele se interessava sobretudo pela relação solo/cultura e pensava ser capaz de estabelecer leis regulares explicativas, isto é, seu objetivo final era costituir uma teoria espacial positiva.
É verdade que Ratzel tem como seu objeto de estudo “a relação de poder (estado) e a terra”, em outras palavras a formação do território. Vale ressaltar que Ratzel tem sua formação inicial universitária naturalista, por isso, ele sempre faz em seus estudos a relação do homem com “a terra”. É na sua formação inicial acadêmica que Ratzel e suas idéias se integram com as teorias evolucionistas darwinianas, contribuindo para a concepção do determinismo geográfico, um deteminismo com base na relação entre o “ser” e “meio”. Segundo GOMES (1996. p.188),
Desta forma, o pensamento de Ratzel teve um papel de mudança paradigmática nas concepções geográficas. Através da idéia de inter-relação e conexão entre o seres vivos e seus meios naturais, Ratzel, influenciado por Haeckel, propõe um perspectiva nova para o determinismo geográfico. Neste caso, a idéia de causa e efeito imediatamente determináveis é substituída por uma determinação produzida ao longo de um processo de evolução e de diferenciação”. Para Peet, a geografia científica moderna nascia a partir do “determinismo ambiental”.
Não é à toa que Ratzel é conhecido como o “pai do determinismo geográfico” e o “pai da geopolítica”. Para MORAES (2005, p.71),
Outro desdobramento da proposta de Ratzel manifestou-se na constituição da Geopolítica. Esta corrente, dedicada ao estudo da dominação dos territórios, partiu das colocações ratzelianas, referentes à ação do Estado sobre o espaço. Estes autores desenvolveram teorias e técnicas, que operacionalizavam e legitimavam o imperialismo. Isto é, discorriam sobre as formas de defender, manter e conquistar os territórios.
É no contexto histórico alemão, que o desenvolvimento da ciência geográfica para Ratzel ganha sentido, pois, é na geografia que a formas (e relações) de poder são representadas no espaço, e assim deve ser estudada. Porém não apenas as relações humanas, mas, as relações do homem com e o meio (natureza). Deve-se sempre lembrar que a principal obra de Ratzel, “Antropogeografia”, retratava com grande expressividade a relação do homem com o meio.
O Princípio de Extensão
O Princípio da Extensão afirma que: os fenômenos geográficos devem ser analisados e delimitandos (de onde iniciou até onde terminou), sendo preciso a utilização de técnicas cartográficas, ou seja, os fatos geográficos devem ser localizados (onde) e delimitados (até onde) no espaço, necessitando, portanto do apoio da Cartografia.
Porém, este princípio engloba vários pensamentos e propósitos da geografia ratzeliana. As idéias de território na perspectiva ratzeliana, aparece em duas formas, a primeira, de forma representativa, sendo uma justificativa pela a busca incansável por terras, para expansão do império alemão bismarckiano, e a outra forma mais teórica, sendo uma explicação reflexiva sobre o que é território. O território é a relação de poder (daí o caráter político) alicerçada pelo homem com o seu desenvolvimento na terra. Ratzel em seus estudos, repassa várias relações de força, tanto a força humana pela posse do território, como no território.
É refletindo sobre esse conceito de território, que fazemos a comparação entre os objetos de estudo da geografia ratzeliana com o princípio de extensão, e um exemplo para sintetizar a idéia, é a seguinte: a delimitação das áreas (territórios), para nela ser expressada uma liderança humana, com a busca de novas áreas, representa de modo subjetivo o próprio princípio de extensão, pois, “os avanços territoriais” sendo retratados como um fenômenos geográficos, precisam ser delimitadom (cartograficamente ou não) para fins de reconhecimento territoriais, sendo que os fatos histórico viabilizam o entendimento que marcaram e influenciaram a geografia e o pensamento de Ratzel, podendo dizer que a justificativa para o expansionismo alemão, era uma prévia para a fundamentalização do princípio de extensão, pois, o avanço da sociedade era o ganho de território, delimitação deste.
O fluxograma sistemático abaixo, expressa a relação de território e alguns fatores históricos influentes para a geografia, destacando-se o expansionismo e o imperialismo alemão, destinando e objetivando sempre a busca de poder e pela conquista de novas terras (tais, elementos fundamentalizam o conceito de território, o mesmo está intimamente ligado ao princípio de extensão).
O Conceito de Território e o Princípio da Extensão

(Fonte: Valdelúcio Fonseca)
Conclusões Provisórias
Com a realização das leituras, que tratava sobre a epistemologia da geografia e sobre a história do pensamento geográfico que discutiam sobre Freidrich Ratzel, verificou-se o quanto é difícil desenvolver estudos teóricos e, ao mesmo tempo, o quanto necessários eles são para a formação do geógrafo, principalmente do professor de geografia.
Ao estudar o princípio clássico de extensão da geografia, observou-se a íntima relação entre a compreensão dos objetos de estudos geográficos ratzelianos e suas construções metodológicas, somados com o contexto/processo histórico de suas formulações. Constatou-se a importância de tal princípio ou lei para a consolidação da Ciência Geográfica no contexto de sistematização da Ciência Moderna. Pois devemos salientar que foi a partir daí que houve a inserção da Geografia no processo de institucionalização, adentrando as Universidades e instituições de ensino.
No decorrer desta pesquisa, os estudos de textos transcritos/traduzidos originalmente das fontes clássicas foram fundamentais, pois a maioria dos livros e textos contemporâneos de discussão teórica voltados ao pensamento geográfico busca, em sua essência, estudar os aspectos teórico-metodológicos da geografia sob a ótica da dicotomia Geografia Tradicional e Geografia Crítica, criando uma visão em grande parte não dialética e não processual, onde se costumam rotular os pensamentos desenvolvidos durante a chamada “Geografia Tradicional” como se fossem homogêneos, lineares ou “pré-críticos” (quase como sinônimos de “não-críticos”). Esse tipo de análise, a nosso ver, empobrece a rica e complexa essência epistemológica do conhecimento/pensamento geográfico e falseia a verdadeira contribuição dos autores clássicos, enquadrados como tradicionais, para o desenvolvimento da geografia contemporânea, que em seus respectivos contextos históricos e científicos foram de grande capacidade crítica e criativa, a partir de suas bases teórico-metodológicas e políticas. Afinal, a criticidade não possui referencial único, ela é histórica e relativa.
Referências
Livros:
CHRISTOFOLETTI, Antônio. Perspectivas da Geografia. São Paulo: Difel, 1982.
GOMES, Paulo Cesar da Costa. Geografia e Modernidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.
MORAES, Antônio Carlos Robert. Geografia – pequena história crítica. São Paulo: HUCITEC, 1983.
MORAES, Antônio Carlos Robert (Org.). Ratzel – coleção grandes cientistas sociais no. 59. São Paulo: Ática, 1990.
SEABRA, Giovanni F. Fundamentos e perspectiva da Geografia. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 1997.
Internet:
RATZEL, Freidrich. O elemento humano na Geografia. A história e geografia do homem. Disponível em: <http://ivairr.sites.uol.com.br/ratzel.htm>. Acesso em: 10 maio 2009.
RATZEL. Freidrich. Tarefas e Métodos da geografia do homem. In: Evoluzione dei concetti all’influenza Che lê condizioni naturali esecitano sull’umanità. In: Geografia dell’uomo [Anthropogeographie]. Turim: Fretelli Bocca, 1914. v. 1, parte 1. Disponível em: <http://ivairr.sites.uol.com.br/ratzel2.html>. Acesso em: 12 maio 2009.
Valdelúcio Fonseca é estudante do Curso de Geografia da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA, Sobral - CE, Bolsista de Iniciação Científica – IC/FUNCAP, e monitor da disciplina de “Teoria e Método em Geografia” - valdelucionascimento@hotmail.com
Isorlanda Caracristi é professora da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA, Doutora em Geografia Física (USP), responsável pela Disciplina “Teoria e Método em Geografia” - icaracristi@hotmail.com