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Ano 05 - Nº 17 - Agosto de 2010

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Geopolítica

A fome no mundo ontem e hoje – Autor: Silvio Villar

Ano 04 - Nº 14 - Fevereiro de 2010

“A história da humanidade tem sido, desde o princípio, a história de sua luta pela obtenção do pão-nosso-de-cada-dia. Parece, pois, difícil explicar e ainda mais difícil compreender o fato singular de que o homem – este animal pretensiosamente superior, que tantas batalhas venceu contra as forças da natureza, que acabou por se proclamar seu mestre e senhor – não tenha até agora obtido uma vitória decisiva nesta luta por sua própria subsistência.”


Assim começa um dos documentos mais importantes do mundo sobre a fome, o livro de Josué de Castro “Geopolítica da fome”, em que o autor retrata as mais diversas facetas sobre o tema. Em seus dois volumes, discute causas e conseqüências da fome além de fazer uma minuciosa análise da sua distribuição regional. Também se ocupa de oferecer prognósticos e mostrar os caminhos que a ciência estava tomando para tentar resolver o problema.

Desde o lançamento do livro de Josué de Castro, em 1951, o mundo passou por revoluções técnico-científicas admiráveis. Com relação às técnicas, a agricultura aperfeiçoou o enxerto, a irrigação por aspersão e por gotejamento, o dry farming e a correção de solos, entre outras coisas. Mas o que mais revolucionou a agricultura foi a introdução de técnicas de transgenia, fazendo com que o indivíduo de uma espécie se torne ao mesmo tempo resistente às pragas e tenha um aumento substancial da sua produtividade. Aumentando o uso das terras desmatadas em vários países ao redor do globo teremos também o aumento da produção.

De acordo com o autor, dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação – FAO (sigla em inglês) de 1946 colocam um bilhão e meio de pessoas vivendo em um estado permanente de fome. Comparando com os dados atuais da própria FAO, cerca de um bilhão ainda permanecem nesse estado. É verdade que, comparativamente, a proporção de pessoas passando fome no mundo diminuiu, afinal o número total de habitantes aumentou muito desde então. Mas com as novas técnicas e tecnologias, que permitiram aumentos de produção e produtividade, a fome deveria ser um tema ultrapassado há muito tempo. E porque não o é?

O próprio Josué de Castro no seu livro nos dá uma resposta, quando diz que a fome coletiva é um fenômeno de categoria social, provocada no geral por mau aproveitamento dos recursos naturais ou pela má distribuição dos bens de consumo obtidos. Significaria dizer que a fome é uma construção cultural humana, que pode ter vários motivos. Mas no geral o que se observa é uma herança dos pactos coloniais, que fizeram com que as áreas que foram colônias no passado se tornassem áreas de fome endêmica pelo mundo de hoje. A maioria dos países subdesenvolvidos que hoje vivem da agroexportação também apresenta fome crônica, uma vez que a produção é feita para atender aos mercados externos.

Para discutir e apresentar propostas para esse problema, a FAO realiza uma reunião periódica com os países pertencentes a ONU para definir metas para erradicação da fome no mundo, a Cúpula Mundial de Segurança Alimentar. No final de 2009 ela foi realizada em Roma, com o objetivo direto de discutir a respeito de políticas de investimento na agricultura e sobre os esforços internacionais de combate à fome.

Apesar da grande expectativa gerada pela sua realização, ela terminou sem muitas novidades, apenas introduzindo a temática do aquecimento global ao tema central da discussão. Não foram criados novos mecanismos de financiamento para os países subdesenvolvidos nem ferramentas para que a FAO controle os compromissos assumidos pelos participantes. Portanto, pode-se dizer que o encontro foi uma grande perda de tempo e dinheiro.

Se o fantasma da fome é algo assim tão assustador, por que os países não conseguem chegar a um consenso? Por dois motivos, ambos coletivos, mas em escalas diferentes. Primeiro que cada país, pensando de forma capitalista, está tentando aumentar a sua participação no mercado internacional, o que levaria a um aumento de receitas internamente. Segundo que os produtores de alimentos, pensando de forma capitalista, estão tentando garantir que não terão prejuízo de forma alguma, nem que para isso uma parcela significativa da humanidade tenha de passar fome.

A conclusão a que se pode chegar é simples: a fome, que acompanha a humanidade desde que ela se aventurou a largar a vida nômade no Período Neolítico não deixou de existir, apesar da produção de alimentos ser hoje suficiente para alimentar três vezes o total de pessoas no mundo. Se os alimentos estão sobrando, como pode a fome continuar assolando o mundo? A resposta é bastante desagradável, mas verdadeira: o ser humano é o único animal do planeta Terra que permite que o seu semelhante morra de fome se ele não tiver dinheiro para comprar seu alimento. Poderão perguntar: “E as sobras?” Não existem. Virarão adubo para as plantações do ano seguinte. E dessa forma, à custa de pessoas pobres passando fome, o mundo continua o seu giro capitalista em torno do próprio umbigo.