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Ano 05 - Nº 17 - Agosto de 2010

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Dinâmica social

Sociedade, espaço e tempo – Autor: Luiz Etevaldo da Silva

Ano 04 - Nº 14 - Fevereiro de 2010

Resumo Este artigo tem como objetivo proporcionar reflexões acerca da importância dos conceitos espaço e tempo no estudo da geografia. Ele estabelece relações entre as diversas dimensões destas categorias para compreensão das formações e transformações do espaço e dos lugares; faz várias análises sobre a dinâmica social nos lugares, a partir de concepções de tempo e interesses dos atores sociais em suas interações no processo de construção da vida social.


Palavras-chave: sociedade, geografia, espaço, lugar, tempo.

Introdução

Este texto traz algumas considerações acerca da dinâmica social, no espaço e no tempo. São reflexões a partir do ponto de vista da geografia, mas que não se limita a pensar apenas elementos referentes ao estudo deste componente curricular; visto que entendemos que pensar sobre o espaço e o lugar é interessante a todo contexto de ensino.

O artigo tece reflexões acerca da relação espaço e tempo; entende que são conceitos indispensáveis ao estudo da geografia, pois não há como se entender a dinâmica social deslocada de um lugar, que está em algum ponto do espaço, relacionada a um determinado tempo; trata, então, estas duas categorias a partir de uma relação dialética, e entende que são fundamentais para compreender as formações e transformações do espaço e as diferentes realidades configuradas social e politicamente.
 
Espaço e tempo no estudo da Geografia

O espaço pode ser natural, onde ainda não teve a interferência do homem e humanizado, quando sofreu transformação proveniente da ação humana. Assim, entendemos por espaço geográfico, então, aquele cuja configuração tem a marca do homem.

Espaço é uma realidade física, química e biológica, formada por uma biodiversidade, de onde o homem retira os recursos naturais para sua sobrevivência. Por outro lado, o tempo é sucessão dos acontecimentos sociais, políticos, culturais e econômicos no espaço.

O fluxo dos acontecimentos e a práxis social dão contorno a maneira como o homem constrói o espaço. Neste caso, a relação antropológica interfere no espaço e cria as condições de existência da sociedade humana. Sendo assim, o espaço ganha uma dimensão social e política.

Na escola, no entanto, o estudo das categorias espaço e tempo requerem uma visão dialética entre a realidade socioespacial global e local. Pois, de acordo com Callai:

Muitas vezes sabemos coisas do mundo, admiramos paisagens maravilhosas, nos deslumbramos por cidades distantes, temos informações de acontecimentos exóticos ou interessantes de vários lugares que nos impressionam, mas não sabemos o que existe e o que está acontecendo no lugar onde vivemos (CALLAI, 2006, p. 83).

Isto é possível de perceber quando perguntamos aos alunos onde há pessoas passando fome ou imensas dificuldades materiais, e eles logo dizem que é na África. Então, esquecendo-se que, às vezes, na sua própria cidade encontramos esta realidade de miséria.

Tempo é a experiência humana no espaço Terra. Para compreender a sua dinâmica precisamos entender as vicissitudes da multiplicidade de concepções de tempo, no qual estamos “mergulhados”. Assim, interagir com o tempo é, neste sentido, entender o processo histórico.

Consequentemente, pensar criticamente o nosso tempo e o lugar no espaço é compromisso ético da educação. Pois, “compreender o lugar em que vive, permite ao sujeito conhecer a sua história e conseguir entender as coisas que ali acontecem” (CALLAI, 2006, p. 84). Trata-se, então, de que a constituição da subjetividade crítica do indivíduo interpela para uma inserção na decodificação da realidade social e política no espaço e no tempo. Por outro lado, “a história concreta de nosso tempo repõe a questão do lugar numa posição central” (SANTOS, 1996, p. 152).

No entanto, a visão de tempo é relativa. Visto que há um passado que só percebemos nas transformações, um futuro apenas em nossa imaginação, o que existe de fato é presente que está em constante movimento, o que torna difícil dizer, o que é realmente o presente, pois quando acabamos de responder já passou.

Efetivamente, o tempo serve de referências para estudo das experiências humanas no espaço. Ele guarda verdades, de repente as revela. Também, produzem paradoxos, contradições, ambigüidades e nos dá possibilidades de pensar e repensar, assim, construir conhecimentos e constituir saberes. Mas, o tempo é único, depois que passa não volta mais. Quem perde um determinado tempo jamais o recupera como tal, logo, os acontecimentos são singulares.

Na prática, no lugar o homem trabalha, no sentido antropológico, (para sobrevivência, desde épocas remotas), e econômico, na sociedade capitalista, por exemplo, quando explora o espaço com o intuito de produzir riquezas. Neste sentido, a dinâmica das ações humanas no lugar se modifica ao longo dos tempos, de acordo com as necessidades e das formas de relações dos homens com a natureza e entre eles. Sendo assim, “o lugar como categoria de análise pressupõe que se vislumbre o espaço geográfico – objeto de estudo – considerado em seus aspectos relativos e relacionais ao contexto em que se insere” (CALLAI, 2006, p. 88).

As transformações no espaço

O espaço humanizado criou paisagens, que no decorrer dos tempos ganham configurações diferentes, dependendo dos processos culturais em curso, numa determinada sociedade. Notemos, então, que o espaço é categoria indispensável para compreender os grupos sociais. Pois, dependendo das relações culturais, econômicas, políticas é a forma de relação do homem com o espaço. De fato, “o espaço é construído ao longo do processo de construção da própria sociedade” (CALLAI, 2006, p. 93).

Observa-se, que o espaço humanizado ganha especificidade ao longo do tempo, de acordo com as concepções e princípios dominantes de um paradigma epistemológico. Por este motivo, dadas estas considerações, a temporalidade caracteriza as formas de expressões do homem. Desta maneira, as ideologias deixam as marcas nos tempos, visto que as dimensões das instâncias sociais e culturais são resultantes do que pensam os homens, na relação com a natureza, com as coisas, com o conhecimento, com os outros, com a transcendência, etc. 

Em sentido amplo, compreender o tempo é, em sua complexidade, uma necessidade do sujeito epistêmico. Via de regra, não há como estabelecer um entendimento da história humana abstraído do tempo e sem a perspectiva de um olhar espacial; dizer de que tempo estamos falando e de que lugar para interpretar o contexto  para criar os princípios de razoabilidade. Assim, “olhar espacial supõe desencadear o estudo de determinada realidade social verificando as marcas inscritas nesse espaço” (CALLAI, 2006, p. 95).

Sob este aspecto, a sustentação dos nossos raciocínios encontra na concepção de tempo e espaço elementos lógicos, consistentes e conseqüentes para se constituir como referência epistemológica, para realizar uma leitura de mundo, que dê conta das diversas dimensões da existência humana e suas relações dialéticas e dinâmicas.

Além disso, toda realidade social e política tem um lugar e um tempo. Em essência, “o espaço é construído ao longo do tempo de vida das pessoas, considerando a forma como vivem, o tipo de relações que existe entre elas e que estabelecem com a natureza” (CALLAI, 2006, p. 96/97). Compreender, portanto a história de um povo requer situarmos no tempo e no lugar; a partir destas categorias procurar pesquisar os elementos constituintes da realidade, juntá-los e elaborar uma determinada explicação lógica dos mesmos.

Neste processo, construir conhecimento significa estabelecer narrativas sobre as mudanças e permanências no lugar, ao longo do tempo; pois, a configuração da realidade hoje foi resultado da dinâmica das relações sociais nele. Como diz Callai: “a dinâmica das relações sociais travadas pelos homens, a dinâmica de seu trabalho, de outra atividades em que se envolvem e das suas relações com a natureza materializam-se no espaço criando e produzindo formas que lhe dão uma determinada aparência” (CALLAI, 2006, p. 99).

Sendo assim, as ciências Geografia e História têm uma relação intrínseca na leitura do contexto em que vivemos. Muitas vezes nem sabemos se determinado conteúdo e de uma ou de outra ciência; elas se convergem dialeticamente.

Como tal, vivemos no lugar e em variáveis de tempos diferentes; o velho e o novo se inter-relacionam no espaço. Trata-se, pois, que a sociedade de hoje é resultado de processos de tempos históricos; que se manifestam pelas tradições e novas invenções da contemporaneidade. Assim, algumas coisas do nosso tempo na verdade são velhas e outras são recentes, que nem a conhecemos bem. Tudo isso é processo sócio-histórico. Como sintetiza Santos:

Cada lugar combina variáveis de tempos diferentes. Não existe um lugar onde tudo seja novo ou onde tudo seja velho. A situação é uma combinação de elementos com idades diferentes. O arranjo de um lugar, através da aceitação ou rejeição do novo, vai depender da ação dos fatores de organização existentes nesse lugar, quais sejam, o espaço, a política, a economia, o social, o cultural. (SANTOS, 1988, p. 98).

Dialética das diferentes realidades no espaço

É interessante sempre lembrar que nada existe por acaso, em se tratando de realidade socioespacial. Como expressa Callai “é preciso entender que a paisagem não se cria por acaso, mas que é resultado da vida dos homens, dos processos de produção, dos movimentos da natureza” (2006, p. 111). Em suma, na escola a visão crítica do aluno se constitui quando começa a entender esta dinâmica interacional entre sociedade, cultura e política.

Pelo exposto, aprender a realizar uma leitura crítica do lugar é uma forma de inteligência. Tendo em vista que perceber diferenças e realidades em movimento é indispensável para compreender a lógica de cada lugar. Pois, “cada lugar tem uma força, tem uma energia, que lhe é própria e que decorre do qual ali acontece” (CALLAI, 2006, p. 119).

Não obstante, convém não esquecer a importância dos processos culturais na construção e reconstrução dos espaços. Assim, entender a configuração de um lugar abstraído da cultura é muito difícil. De acordo com esta visão, “a cultura é um dado fundamental na compreensão dos lugares” (CALLAI, 2006, p. 123). Obviamente, muitas das necessidades humanas são decorrentes da cultura deles ao longo do tempo; como também, muito do que está em um determinado lugar está porque tem uma relação cultural. Neste sentido, “reconhecer a cultura de um lugar local significa perceber a história do lugar, as origens das pessoas que ali vivem e as verdades e valores que pautam as relações entre elas” (p. 123).

Considerações finais

Portanto, pensar a geografia é refletir sobre as formações e transformações do espaço e dos lugares; a partir da dinâmica das relações sociais, políticas, econômicas e culturais. Assim, temos a clareza que este tema não se esgotou, pois é complexo. No entanto, acredito que conseguimos estabelecer um diálogo interessante acerca deste assunto.

Considera-se, então, que as relações espaço e tempo são fundamentais, não apenas no estudo da geografia, mas em qualquer componente curricular; visto que sempre que desejamos realizar uma leitura da realidade recorremos a estas categorias, pois temos que localizar o fenômeno no lugar e na época.

Sendo assim, pensar um ensino de qualidade nos remete sempre às reflexões sobre as interações sociais e políticas dos atores sociais dos lugares referidos e do momento em que vivemos; então, não é possível se construir conhecimentos significativos sem envolvimento crítico com a realidade em que vivemos, isto é, na relação dialética espaço-tempo.
 
Referências bibliográficas

CALLAI. Helena C. Estudar o lugar para compreender o mundo.  In. CASTROGIOVANNI. Antônio C. Ensino de Geografia: práticas e textualizações no cotidiano. 5ª Ed. Porto Alegre: 2006, p. 83-134.

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. 2ª ed. Tradução Roneide Venâncio Majer. São Paulo: Paz e Terra, vol. I, 1999.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência um universal. Rio de Janeiro: Recorde, 2000.

_______. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: HUCITEC, 1996.


Luiz Etevaldo da Silva é mestrando em Educação nas Ciências (UNIJUÍ-RS), especialista em Humanidades, graduado em História e licenciado em Estudos Sociais. Docente da rede de ensino básica pública do Estado do Rio Grande do Sul.