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Ano 05 - Nº 17 - Agosto de 2010

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Educação

Deus deve ouvir Caetano – Autor: Marsiglia Santos

Ano 04 - Nº 14 - Fevereiro de 2010

Deus, ou o que tão descuidadamente se costuma chamar de Deus, deve ouvir Caetano Veloso, sobretudo aquela música “O Haiti é aqui, o Haiti não é aqui...”.


O terremoto, na verdade, era para nós, mas, na hora H, o Senhor ouviu “é aqui, não é aqui”, confundiu-se todo e desperdiçou o tremor com aquele pobre povo pobre que não merecia tanto sofrimento.

Explico melhor porque estou dizendo tal blasfêmia.

Semana passada, deixei meu carro num estacionamento da Vila Madalena, após ter, sem querer, fechado a passagem para um carro com três adolescentes e, pasmem, quando voltei, meu carro estava completamente riscado. E, segundo testemunhas, foi um revide dos três moleques.

Imediatamente, pensei em destruir a raça daqueles retardados que fizeram isso, me lamentei não ter anotado a placa do carro deles, chorei por não ter provas para um processo contra o estacionamento, tentei lembrar de amigos influentes, cansei, e fui dormir, pensando, enfim, que não era um caso jurídico, mas, antes, um caso de educação.
 
É muito curioso como no nosso país nós reclamamos da justiça, da saúde, da política, mas somos permissivos com a educação.

Se ladrão é solto sem uns safanões na cabeça por um “habeas corpus”, logo saem comentadores de plantão a campo com um pau de macarrão xingando nossas instituições, sem saber, a fundo, sobre o caso, sem entender que “habeas corpus” é uma conquista de civilidade humana, pois a boa justiça, para muitos deles, é “bandido bom é bandido morto”.
 
Se uma grávida do seu nono filho perde-o na porta do hospital, logo saem os mesmos a campo, sem se perguntar se ela teria condição de criar nove filhos, ou se ela foi ao hospital desde o início da gravidez, ou se tomou a medicação recomendada a ela.

Se uma casa desaba ou alaga, saem novamente os mesmos reclamando da política pátria sem se perguntar se  as casas estavam legais, ou se foram construídas à guisa de qualquer política pública.

Enfim, quero, com isso, dizer que antes de um problema institucional da justiça, da saúde, da política, há, na grávida infeliz, no desalojado, no comentador, um problema de falta de educação.

E justamente a educação é a única coisa de que ninguém reclama.

Cabe aqui uma comparação.

Se um filho seu está num hospital e você percebe que o hospital é de má qualidade, e você tem dinheiro para trocar de hospital, você: 1- tira-o de lá, 2-exige melhorias do hospital.

Qual escolhe?

Quem escolheu a opção 2 é porque é muito desumano com a saúde de seu filho.

Agora, se o mesmo filho está numa escola e você percebe que ela  é ruim, algo cotidiano no nosso país, o que faz?

O que observo é as pessoas preferindo a opção 2. Os pais vão lá, choramingam, ouvem promessas fiadas e voltam para casa felizes.

Acham que seu filho já está habituado ao lugar, que dará muito trabalho trocar de escola, que se ele não aprender por lá, depois um cursinho o conserta.

Quantos pais já não escolheram a escola dos filhos pelo preço, por ser perto de casa, por ter uma quadra de futebol coberta e piscina? Já viram “sites” de escolas? Parecem de clubes.

Pensem se escolheriam assim o hospital dos filhos?

É muito desumana a maneira como enxergamos a educação. E muito corrupta com nós mesmos. Não devemos nada aos políticos desatentos conosco se somos desatentos com nossos próprios filhos.

No ventre de nosso descaso está a gestação contínua de brasileiros estúpidos, criminosos, uma opinião pública ignorante, pais e mães tolos, falta de cultura, fome intelectual, Tvs péssimas, enfim, pessoas que falam de tudo que está nos galhos e não enxergam o tronco da árvore, a raiz do problema.

Agora sim, voltando ao ponto em que iniciei, que deveria fazer eu com os riscadores do meu carro se os identificasse? Pedir que fossem presos? Deve a justiça se preocupar com uma estupidez tão mínima como essa?

Deve a saúde se preocupar com a ignorância da grávida?

Ou isso será que isso deveria ser assunto para educadores que, essa é que é essa, por terem clientes relapsos e pouco exigentes, tornam-se também relapsos e pouco exigentes com o seu próprio trabalho.

Em suma: o país tem um problema sério e ninguém fala dele, não é incrível?

Todo mundo fala de tudo, mas não de educação.

Deus certamente deveria mandar para cá aquele terremoto, nós o merecíamos muito mais do que o Haiti.