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Ano 05 - Nº 17 - Agosto de 2010

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Drama

Amor Sem Escalas – Autor: Felipe Folgosi

Ano 04 - Nº 14 - Fevereiro de 2010


Mais um caso de um péssimo título em português que passa a impressão errada. O filme não é uma comedia romântica, trata-se de um drama contemporâneo.


De modo geral, drama é o gênero que engloba tragédia e comedia em um só, e o filme co-escrito e dirigido por Jason Reitman (Juno) cumpre o papel com maestria. Usando como pano de fundo a recente crise econômica americana, ele expõe como o mundo corporativista, neoliberal, tecnocrata, pode ser alienante.

O trabalho sujo de demitir funcionários foi terceirizado. Para quê ter o desgaste de demitir seu colega de trinta anos de empresa quando um desconhecido qualquer pode fazer isso com extrema eficiência e profissionalismo?

George Clooney é esse homem, um executivo expert em remover cirurgicamente os corpos estranhos que funcionários obsoletos passaram a ser. Clooney não é um sádico, ele não tem prazer em demitir ninguém, mas sim no processo que seu trabalho exige. Ele passa em media duas semanas em casa por ano, vivendo basicamente em aviões, saguões de aeroportos e hotéis de rede. Viajar virou seu estilo de vida e ele o aperfeiçoou ao máximo, nada em sua pequena mala e supérfluo, não há uma compra ou refeição na qual ele não acumule milhas, e ele sabe quais são os melhores bares e restaurantes nos aeroportos para conhecer mulheres.
Em seu tempo livre, entre demissões, ele dá palestras de auto-ajuda para executivos em auditórios de hotéis sobre como "downsize" sua vida, cortar toda gordura, todo excesso, fazendo com que tudo o que você precisa caiba em uma mochila.

Clooney vê a si mesmo como uma pessoa evoluída, quase um mestre "Zen", sem apegos, sem ligações. Mas em um mundo regido por resultados trimestrais, o próprio Clooney se vê a beira de tornar-se obsoleto quando uma recém-formada (Anna Kendrick) é contratada por sua empresa para instaurar um método de demissão através de vídeo conferência e, assim, cortar os custos com viagens. Vislumbrando ficar "preso" no chão, Clooney convence seu chefe a testar o novo método e acaba tendo que levar a inexperiente executiva junto em uma de suas "turnês".

O personagem de Clooney remete ao personagem da ópera de Wagner "Holandês Voador", que é amaldiçoado a navegar sem fim até que encontre uma mulher que o ame verdadeiramente. É ai onde entra a personagem de Vera Farmiga, uma executiva com a qual Clooney vive um relacionamento livre, conciliando datas, de hotel em hotel, basicamente sua versão de saias.

Durante a viagem os personagens vão se conhecendo, suas ambições, sonhos, fraquezas e decepções. Reitman nos mostra a tragicidade do personagem de Clooney, sem cair no erro de justificar por que ele é assim.

A relação humana que ele tanto evita é a única coisa que resta e dá sentido em meio ao caos. O filme toca em valores atuais, conceito de felicidade e escolha moral sem ser piegas. O titulo original (Up in the Air) faz menção a esse estado de estar "solto no ar", sem raiz. Compromisso/desapego, estagnação/mobilidade. Apesar de parecer um paradoxo, a liberdade pode se tornar uma prisão.