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Resumo: Este artigo desvelará alguns dos processos que, de forma encadeada, configuraram as cidades no decorrer da história do Ocidente. Da religião à economia política, a multiplicidade é o eixo de discussão, e, tratada sob um prisma geográfico, resgata alguns dos pressupostos que valida a cidade como o ambiente material mais complexo já construído pela humanidade, impregnado de representações, símbolos, práticas materiais envolventes e inúmeros projetos concluídos e em andamento. Sob a égide do capitalismo, a cidade adquire novos contornos que precisam de uma atenção geográfica redobrada, para não cairmos no erro de olhar o urbano com os olhos e outrora.
Palavras-chave:
Cidade, Ocidente, forma simbólica, capitalismo.
Introdução
A cidade é um tema fascinante, rodeado de hipóteses (muitas delas com um tom “místico”) sobre a sua possível origem e desenvolvimento histórico-geográfico.
Hoje, sendo o locus por excelência da implantação e gestão do capital, a cidade (notadamente a metrópole) adquiriu status de ambiente “ideal”, pelos menos no que toca à produção, circulação e consumo de mercadorias, significados, e à manutenção das classes hegemônicas. Não é de hoje que as classes média-alta e alta dispõem de mecanismos sólidos para construir suas casas-fortaleza e condomínios luxuosos sem nenhuma resistência por parte das classes alijadas e do Poder público. Com isso, prosseguem mantendo suas posições de legitimidade e poder, e o exercício da cidadania se restringe a estes espaços de uso exclusivo.
Contudo, a cidade não se configura apenas como substrato material na qual os dilemas e anseios hegemônicos são satisfeitos: existe todo um cabedal de pensamentos, práticas e interconexões que vem movendo a cidade para outros esquemas de discursivo, significações e usos que contrastam firmemente com a atuação fixa e reificante do capital[i].
É interessante notar que as cidades, independentemente da extensão e do grau de influência, emergiram em cada período histórico, e contexto geográfico, como condição e resultante dos dilemas, anseios e atividades dos povos e grupos hegemônicos que as constituíram. Veremos agora quais os processos geográficos que correspondem à formação, no tempo e no espaço, das cidades ocidentais.
A cidade Ocidental: formação e desenvolvimento geográfico desigual
Na aurora das primeiras aglomerações e civilizações urbanas, determinadas formas e relações espaciais foram de suma importância para a configuração da urbe e a sua separação do campo. Vários autores não chegam a um termo comum sobre os aspectos que levaram à “origem”. Harvey (1980), Tuan (1980), Claval (1980), Munford (1991), por exemplo, possuem idéias divergentes sobre a mesma temática. Todavia, ao discutirem a separação entre a cidade e o campo, enfatizam a separação entre o trabalho manual (produtor rural) e o trabalho intelectual, este último, configurado pelos sacerdotes, guerreiros e a elite burocrática responsável pela administração dos alimentos excedentes.
Rosendahl, ao analisar a literatura sobre as cidades, ratifica que:
Há acordo geral de que algum produto agrícola excedente foi necessário para a emergência das formas da cidade. David Harvey (1980), Gordon Childe (1974), Gideon Sjoberg (1960), Paul Singer (1976) e Darcy Ribeiro (1979) aceitam a tese do fenômeno urbano a partir da existência de excedentes alimentares que possibilitaram a divisão social do trabalho e o aparecimento de classes sociais.
[...] As teorias supõem que o excedente para sustentar uma elite foi extraído de uma base agrícola. Alguns apontam para a possibilidade de que o poder, para extrair excedentes, tornou-se concentrado nas mãos de uma elite devido à necessidade de coordenar esforços para alimentar uma população crescente com uma base limitada de recursos. Outros enfatizam que as elites surgiram por monopolizar uma forma de conhecimento ou tecnologia. (ROSENDAHL, 1999, p. 20).
A autora tenta assimilar a origem da cidade à manifestação do sagrado, ou seja, as cidades derivariam de lugares que foram considerados primordiais da criação do mundo. Tuan compartilha da mesma idéia ao assinalar que:
Quando o estudo de urbanismo retrocede até os seus centros primitivos e em um passado distante, não encontramos o mercado ou a fortaleza, mas sim a idéia da criação sobrenatural do mundo. O agente é um deus, um sacerdote-rei ou herói: o locus da criação é o centro do mundo. Esse centro, geralmente é assinalado de alguma maneira. Talvez começando como um santuário tribal, transforma-se em um compacto e amplo conjunto cerimonial que inclui diferentes combinações de elementos arquitetônicos, como plataformas, terraços, templos, palácios, pátios, escadas e pirâmides. A cidade transcende as incertezas da vida; ela reflete a precisão, a ordem e a predição dos céus. Antes da escrita ser bem difundida, a visão do mundo era mantida pela tradição oral, ritual e (não menos importante) pela força semiótica da arquitetura. (TUAN, op. cit., p. 174).
Todavia, independentemente da origem “verdadeira” das cidades (um centro agrícola, um templo ou uma fortaleza), o que importa enfatizar é a exploração e acumulação de excedentes alimentícios e econômicos, e também a centralização do poder político: tais fatores foram os alicerces de formação das cidades desde as primeiras civilizações.
Com isso, vê-se a trama histórica da subordinação do campo à cidade; além do mais, servem como indício para o próprio desenvolvimento das cidades ocidentais após o período feudal e a aurora da modernidade.
Desde os escritos de Marx, e até hoje em autores como Harvey e Munford, entende-se a cidade como sendo articulada ao campo. É uma relação de interdependência que coloca o campo como entidade que viabiliza a alimentação contínua e suficiente da população urbana, além de fornecer de mão de obra para as indústrias, pelos menos até a segunda metade do século XX.
Lefebvre (1999, passim), por sua vez, destaca três longos períodos de constituição da sociedade ocidental: sociedade agrária, sociedade industrial e sociedade urbana.
Esta última ainda estaria, de acordo com o autor, em formação, num devir dialético que pretende “superar” as defasagens do industrialismo. A condição de classe da sociedade urbana capitalista é o motor que levaria à efetivação das condições de vida reprodução da vida social urbana.
Podemos dizer que a concepção lefebvriana está impregnada pelo viés eurocêntrico (e urbanocêntrico), já que outras expressões histórico-sociais e geográficas são descuradas, além do que o marxismo não pode ser a única resposta plausível à realidade urbana múltipla. Além do capital, outras relações devem ser reconsideradas, fato definitivamente ignorado no marxismo ortodoxo. Na ala mais progressista, só recentemente entendeu-se o “recado” – para se ter uma idéia, a estética lukacsiana – teoria atribuída ao filósofo húngaro marxista Georg Lukács – só adquiriu valor teórico e prático para os marxistas nos anos 1970-80. Até então, esse grande intelectual foi relegado como um filósofo “fútil”, que não se dedicou ao “Capital” de forma devida.
A expansão das cidades capitalistas está intimamente vinculada à industrialização crescente na Europa dos séculos XVII-XVIII. Porém, é em meados a final do século XIX que as indústrias (as mais dinâmicas funcional e financeiramente) tornam-se multifacetadas e multi-localizadas.
A Europa não é mais a única região do globo onde as firmas e fábricas se territorializam.
Trata-se do período de apogeu do imperialismo europeu (britânico). Cartéis, trustes e conglomerados formam um mercado de atividades e de consumidores que ultrapassa as fronteiras européias para formar outro tipo de fronteira: a fronteira do capital.
Nesse sentido, os cientistas apontam que:
Um padrão urbano-industrial diferente está associado com a alta economia capitalista, que surgiu no final do século XIX. A formação, através de incorporações e sucessões de firmas com especificações de produtos semelhantes e das organizações nacionais estruturadas em base departamental, aumentou o número de administradores na indústria, considerando os níveis de emprego estabelecidos na produção e nas funções de controle da produção. Na época, uma característica importante da organização corporativa foi a emergência de um número de cidades provinciais poderosas como centros administrativos para as indústrias ou grupos de indústrias, e a economia do espaço urbano foi caracterizada por uma estrutura “regional” distinta. A capital nacional, que é o centro do governo, tipicamente era a maior cidade e impôs certos graus de controle funcional sobre a hierarquia urbana. (CLARK, 1991, p. 162).
Palco da vida social burguesa, manifestação geográfica das desigualdades e injustiças sociais, ambiente onde os indivíduos tiveram seus corpos libertos – para depois serem reaprisionados pela indústria “corporal” (academias, clínicas estéticas, cirurgiões plásticos, lojas de moda, exigência de uma aparência determinada para emprego etc.) –, a cidade é expressão espacial de toda a complexidade social que se sobressaiu com a profusão de instituições, associações e outros mecanismos de regulação.
O planejamento é uma conseqüência da complexificação da vida societária. O planejamento veio a tona para solucionar questões elementares provenientes do aumento populacional exponencial em aglomerados urbanos. Medidas higienistas, habitacionais, de segurança, e técnicas de adequação e gestão dos territórios são o escopo do planejamento, função atribuída e reforçada pelo Estado de bem-estar social (Welfare State) no pós-crise de 1930.
Olhando as formas simbólicas do espaço
Olhar a cidade, e os objetos espacialmente distribuídos como formas simbólicas espaciais, isto é, como “representações da realidade, resultantes do complexo processo pelo qual os significados são produzidos e comunicados entre pessoas de um mesmo grupo cultural” (CORRÊA, 2007, p. 7), contribui para evidenciar a des-territorialização dos grupos, o conflito de símbolos e o sentido político por eles exposto via objetos geográficos. As formas simbólicas são idealizadas para cumprir as seguintes funções:
i. Glorificar o passado, acentuando alguns aspectos julgados relevantes para o presente e futuro;
ii. Reconstruir o passado, conferindo-lhe novos significados. Neste caso, como no anterior, tradições podem ser inventadas, como argumentam Hobsbawm e Ranger (2002);
iii. Transmitir valores de um grupo como se fossem de todos. Nesse caso estão envolvidas fortes relações de poder;
iv. Afirmar a identidade de um grupo religioso, étnico, racial ou social. A identidade nacional tem sido objeto de inúmeras formas simbólicas;
v. Sugerir que o futuro já chegou, sendo portador de características julgadas positivas;
vi. Criar “lugares de memória”, cuja função é a de estabelecer ou manter a coesão social em torno de um passado comum. (Nora apud CORRÊA, 2007, p. 10).
Enganam-se os que pensam na análise das formas simbólicas como uma visão conservadora, estanquizada, que não dá conta do sentido político impregnado nos objetos geográficos. O estudo de Harvey sobre a basílica de Sacre-Coeur em Paris é um exemplo primoroso de como um espaço arquitetônico pode ser investigado a partir de sua história e espacialidade particulares, na qual se enfatiza a dimensão simbólica da forma-monumento, ou seja, encara-a como uma forma simbólica espacial – composta por fixos e fluxos (Ibid., p. 8).
Harvey buscou nada mais nada menos que reconstruir as lutas e as ideologias políticas e religiosas subjacentes à Basílica – construída num período extremamente conturbado: guerra franco-prussiana, lutas da classe trabalhadora (Comuna de Paris de 1871), necessidade de legitimação do catolicismo na França etc. Rosendahl, ao analisar o texto de Harvey, aponta:
Harvey acrescenta em seu estudo que a basílica esconde os segredos dos que lutaram contra e a favor do embelezamento local, e que o visitante que olha para aquela estrutura semelhante a um mausoléu que é o Sacre-Coeur pensaria no que está enterrado ali. O espírito de 1789? Os pecados da França? A aliança entre o catolicismo intransigente e o monarquismo reacionário? O sangue de mártires como Lecomte e Clement Thomas? Ou o de Eugene Varlin e de aproximadamente 20.000 partidários da Comuna impiedosamente massacrados com ele?
A Basílica, enquanto evocava respostas políticas na época de sua construção, era também vista por muitos como uma provocação para a guerra civil, permanecendo até hoje como símbolo político e religioso. (ROSENDAHL, 1997, p. 12-3).
A cidade pode ser interpretada e experienciada de diferentes maneiras. Esse assunto não é novo. Basta olhar a literatura do século XIX e terão ali distintas percepções, representações e práticas sobre a vida social e a materialidade da cidade moderna.
Tuan mostra as diferentes concepções de cidade presentes em dois autores russos proeminentes, Tolstoi (1828-1910) e Dostoievski (1821-1881). Para o primeiro, que viveu em um contexto de constante guerra e mudança sociocultural na Rússia, e na qual as cidades emergiam por todos os cantos refletindo tais transformações, a nova ordem era vista como a perdição da sociedade, a antítese clara do passado esplendoroso e harmonioso do campo. Em suma, o campo era a possibilidade poética da boa vida. Já a cidade, na sua visão, só é digna quando é destruída. Não é de se estranhar que, dada essa forma “niilista” de pensar, sua descrição sobre o incêndio de Moscou é tão pujante, soando como uma contemplação de algo que se fez necessário para o bem do povo[ii].
Ao contrário, Dostoievski foi um novelista tipicamente “urbano”: admirou a beleza da cidade e a sua capacidade intrínseca de acolher os atos humanos mais significativos. Basta ler sua descrição de São Petersburgo, reproduzida por Steiner (apud TUAN, 1980, p. 57): “Eu amo o sol de março em Petersburgo... Repentinamente a rua inteira resplandece, banhada em luz brilhante. Todas as casas, de repente, parecem, como fossem cintilar. Os tons de cinza, amarelo, verde sujo, por um instante perdem toda a sua tristeza”.
A dimensão simbólica está intrínseca na constituição das nações, das cidades e de outros tipos de instituições e movimentos. O simbolismo dá um tom poético à atividade dos homens e das mulheres. Principalmente quando diferentes interesses estão em jogo, faz-se preciso recorrer a algo de extraordinário, ao poder das idéias para sobrepô-los e hierarquizá-los conforme o grau de influência destes interesses. As classes dominantes envolvidas nesse campo de lutas e de comunicação geralmente estão na frente desses processos de prevalência dos interesses disparatados em um dado campo simbólico e território.
Geertz, no livro A interpretação das culturas (1989), dá um excelente exemplo, tanto em termos sociopolíticos e culturais como territoriais, de como os conflitos contemporâneos são resolvidos a partir da busca de determinados elementos que promovem a agregação (ou distinção) dos grupos. O cenário pesquisado por Geertz foi a Indonésia do governo Sukarno (década de 1960), país por ele descrito como o que “dispõe de mais símbolos hieráticos por metro quadrado do que qualquer outra extensão de terra do mundo” (Geertz, op. cit., p. 136). Para resolver a problemática integração sociocultural entre as tradições ali territorializadas (polinésias, índicas, islâmicas, chinesas e européias), o recém-instaurado governo republicano apelou para a reunião dos símbolos de cada tradição e região em uma pandoutrina estatal. De a Alah a Marx, do econômico ao religioso, o Estado almejou projetar todos os grupos num só referencial simbólico e destino nacional.
Sobre isso, o autor atesta:
[...] a própria densidade e variedade do referencial simbólico fez da cultura indonésia um torvelinho de metáforas e imagens no qual já desapareceu mais de um observador desavisado. Com tanto significado espalhado abertamente ao redor, é praticamente impossível enquadrar um argumento que relacione os acontecimentos políticos a uma ou outra conseqüência dele a que falte total plausibilidade. [...] As guerras ideológicas que devastaram a Indonésia nos últimos vinte e cinco anos não devem ser vistas, como tantas vezes acontece, como embates de mentalidades opostas – “misticismo” javanês versus “pragmatismo” sumatrano, “sincretismo” índico versus “dogmatismo” islâmico – mas como a substância de uma luta para criar uma estrutura institucional para o país que um número suficiente de seus cidadãos ache conveniente o bastante para permitir-lhes funcionar.
Centenas de milhares de mortos políticos atestam o fato de que muitos poucos cidadãos concordaram com o exposto, e ainda é discutível o número dos que concordam agora. Transformar uma mixórdia cultural numa comunidade política atuante é mais do que inventar uma religião civil promíscua para entorpecer a sua variedade. Exige o estabelecimento de instituições políticas no interior das quais os grupos oponentes podem contender seguramente ou a eliminação de todos os outros grupos, menos um, do cenário político. Nenhuma dessas soluções ocorreu na Indonésia até agora, a não ser marginalmente; o país foi incapaz tanto de um totalitarismo como de um constitucionalismo. (Ibid., p. 137).
A cidade moderna que emergiu no período Pós-Guerra foi determinada por uma série de fatores econômicos e culturais que a colocaram como centro de decisões do sistema capitalista, mas, além disso, caracteriza-se por outros aspectos. Não à toa, as sociedades hodiernas receberam vários qualificativos: sociedade do espetáculo (Guy Débord e os situacionistas), sociedade de massa (Escola de Frankfurt, Edgar Morin etc.), sociedade da informação etc., que no fundo, representam quase a mesma coisa.
A flexibilidade é apontada por Harvey (1992, passim) como uma das forças-motrizes da expansão da acumulação do capital através da realocação das atividades industriais e do estabelecimento do setor terciário como principal atividade nos centros urbanos.
As cidades, principalmente depois da década de 1970 com a crise do petróleo, tornaram-se policêntricas devido ao maior fluxo de pessoas, mercadorias e informações engendrado pelas mudanças tecnológicas (eletrônica, robótica, química fina, novos materiais, biotecnologia), pela melhoria no sistema de transportes, de informação e de comunicação, e ao aumento no número de consumidores – a despeito da persistência das desigualdades e das injustiças sociais.
QUADRO 1
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Paradigma Tecnoeconômico |
Primeira mecanização
1770-1840 |
Máquina a vapor e estrada de ferro
1830-1890 |
Eletricidade e engenharia pesada
1880-1940 |
Produção fordista de massa
1930-1990 |
Informação e comunicação
1980-? |
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Setores de crescimento |
-máquinas têxteis
-química
-fundição |
-máquina a vapor
-estradas de ferro e seus equipamentos
-máquinas
-instrumentos |
-engenharia pesada
-engenharia mecânica
-cabos e fios
-produtos siderúrgicos |
-automóveis
-aviões
-produtos sintéticos
-petroquímica |
-computadores
-bens eletrônicos de capital
-telecomunicações
-novos materiais
-robótica
-biotecnologia |
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Novas inovações |
-máquina a vapor |
-aço
-eletricidade
-gás
-colorantes
-artificiais |
-automóvel
-avião
-rádio
-alumínio
-petróleo
-plásticos |
-computadores
-televisão
-radar
-máquinas-instrumentos
-drogas |
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Fonte: Santos (1996, p. 139).
Diversos autores, dentre eles o próprio David Harvey (op. cit., passim), rotineiramente fazem esquemas dualistas para ressaltar as supostas diferenças entre o período moderno e o pós-moderno. É evidente que tais divisões são arbitrárias e negligenciam o contexto histórico nas quais as representações e as práticas tomam distintas formas e conteúdos.
Por exemplo, costuma-se fazer a distinção entre as eras moderna e pós-moderna como sendo centrípeta e centrífuga, respectivamente. Processos centrípetos e centrífugos sempre ocorreram, em todos os períodos históricos, variando conforme as técnicas, os padrões socioculturais e econômicos e as territorialidades de cada grupo/sociedade/nação.
Se o espaço urbano como um todo apresenta hoje a tendência para processos centrífugos (em detrimento dos processos centrípetos), tal afirmação deve ser examinada à luz das circunstâncias históricas e estruturais. Será o processo de descentralização do capital e de suburbanização nos EUA igual ao que é hoje verificado na Europa ocidental e em algumas regiões na América Latina?
Juízos de valor se fazem presentes em quaisquer enunciados, mesmo entre aqueles que advogam a “objetividade” inalienável do trabalho científico [!]
Harvey (op. cit., passim) analisou o processo de compressão espaço-tempo e flexibilização do capital no último quartel do século XX sob uma ótica que, sem dúvida, teve influência das circunstâncias ora apresentadas pelos países centrais (principalmente na Inglaterra e EUA, onde o autor fez sua carreira intelectual). A pergunta que fica no ar é: será que os países periféricos experimentam esta compressão espaço-tempo? Se não, quem aproveita realmente essa amenidade dada pelo encurtamento das distâncias e das barreiras espaciais? Até que ponto a análise de Harvey não caiu num eurocentrismo pós-moderno[iii]?
Essas e outras perguntas deixam claro aquilo que Bourdieu (1989, passim) esclarece a respeito das condições efetivas de trabalho e de produção de sentido do intelectual, respondendo à sua condição histórica e à estrutura de poder na qual se insere (campo acadêmico, burocrático, político, econômico etc.).
Referências:
BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
CASTELLS, M. A questão urbana. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
CLARK, D. Introdução à Geografia Urbana. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1991.
CLAVAL, P. Espaço e poder. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1980.
CORRÊA, R. L. Formas simbólicas e espaço: algumas considerações. GEOgraphia. Niterói. ano IX, n. 17, pp. 7-18, 2007.
GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTD, 1989.
HAESBAERT, R. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. 2 ed. rev. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.
HARVEY, D. Condição pós-moderna. Uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 1992.
LEFEBVRE, H. A revolução urbana. Belo Horizonte: EDUFMG, 1999.
MUNFORD, L. As cidades na história: suas origens, transformações e perspectivas. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
ROSENDAHL, Z. Hierópolis: o sagrado e o urbano. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1999.
______. O sagrado e o espaço. In: CASTRO, I. E., GOMES, P. C. C., CORRÊA, R. L. (orgs.). Explorações geográficas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997. pp. 119-153.
SANTOS, M. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.
TUAN, Y. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo: DIFEL, 1980.
______. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. São Paulo: DIFEL, 1983.
Notas:
[i]Apesar de estarmos conscientes de que muitas dessas reinvenções e expressões sociais, após um breve período de contestação, logo são apropriadas e redimensionadas pela lógica capitalista, ativando novos nichos de mercado. Um exemplo é a esfera artístico-musical, seja ocidental ou oriental, que, após sofrer uma e outra interferência da Indústria Cultural, teve seus produtos difundidos em escala global, atraindo consumidores pelo aspecto exótico, sofisticado e transcendental do produto – O rock e as musicalidades orientais (javanesa, indiana, árabe, australiana etc.), são bons exemplos desse processo de cooptação e mercantilização da arte.
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