Quando tinha quatorze anos tive meu primeiro emprego em uma locadora de vídeo, onde podia assistir filmes o dia inteiro e expandir minha cultura cinematográfica para além dos blockbusters de verão que havia tido acesso até então. Um dos filmes que me marcou muito naquela época foi “Koyaanisqatsi - uma vida fora de equilíbrio”. Apesar de o filme ter sido lançado em 1983, achei oportuno o Dia Mundial do Meio Ambiente para sugerir o filme nesta coluna.
Quando assisti pela primeira vez, fiquei impressionado com a estrutura do filme. Não se trata de um filme de ficção ou um documentário, apesar de ser catalogado como tal. Não existem atores, diálogos ou narração. O filme consiste somente em uma sucessão de imagens ao som da magnífica trilha composta por Phillip Glass.
A primeira imagem mostrada é de uma pintura rupestre representando a forma humana, acompanhada por um coro de vozes que repete a palavra “Koyaanisqasti” como um mantra. A imagem seguinte é da explosão de uma turbina de um foguete espacial, lembrando muito a famosa “elipse” do filme “2001: uma odisséia no espaço” de Stanley Kubrick, em que um primata ainda distante do Homo Sapiens, após descobrir como usar um osso como ferramenta, lança-o no ar, para transformar-se em uma nave espacial, resumindo em um corte toda a historia da civilização humana e seu progresso tecnológico. Nessa breve introdução, nesse contraponto entre as duas imagens, está contida a reflexão que o filme propõe, mas ainda é cedo para definí-la com precisão. Em seguida, belíssimas imagens do planeta Terra aparecem sobre a tela, imagens da natureza virgem, intocada pelo ser humano. O diretor Godfrey Reggio levou sete anos capturando as imagens que em compasso com a música de Glass causam um efeito quase hipnótico. Aos poucos, esquecemos o fato de não haver “estória” da forma que estamos acostumados, e embarcamos na viagem de descobrimento do nosso próprio planeta, apreciando paisagens que muitos talvez nunca tenham visto antes.
Quando já estamos completamente imersos no “transe” da beleza do planeta em que vivemos, alguma coisa começa a “destoar”. Sincronicamente, a paisagem é coberta por trevas e somos levados para o interior de uma caverna, onde diversas associações podem ser traçadas, desde a “Caverna” de Platão até o “Ventre de Gaia”. O coro dos indios Hopi retorna por alguns segundos até cessar quando a tela fica escura. Isso marca o fim da primeira parte.
A segunda parte inicia com o descompasso da música aliado a imagens da natureza não mais estáticas como as das paisagens anteriormente apresentadas, mas de elementos em movimento, como o ar e a água em forma de núvens e cachoeiras. Surgem, então, imagens das intervenções do ser humano no estado natural do planeta, transformando-o, consumindo-o, destruindo-o; construindo um meio para que ele viva não mais inserido na natureza, mas fora dela, sobre ela, usando-a como substrato para esse novo mundo artificial.
A partir daí fica clara a reflexão proposta pelo filme: como o mundo que conhecemos e temos como “natural e real”, não passa da nossa versão dos fatos. É interessante como o filme consegue provocar estranheza e distanciamento àquilo que temos por normal e até mesmo belo. Passamos a ver como é perturbador esse simulacro do real que criamos para nós mesmos. De forma poética, este filme de quase trinta anos já trazia à baila questões como o aquecimento global, o problema energético e o desenvolvimento sustentável que atingem a sociedade de consumo atual e mobilizam reuniões da ONU e do G-20, entre outras. Nos faz lembrar como fizemos pouco em trinta anos e o quanto ainda estamos longe de alguma solução quando um vazamento de óleo causa um desastre ecológico como o que aconteceu recentemente na costa leste dos EUA.
“Koyaanisqatsi”, na lingua dos índios Hopi, quer dizer “vida desequilibrada”. Para eles, é loucura a forma como vivemos, “lutando” contra o planeta, porque, no final das contas, não restam dúvidas de quem será o perdedor.
Koyaanisqatsi é o primeiro filme da trilogia Qatsi, seguido por Powaqqatsi, de 1988, e Naqoyqatsi, de 2002.