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Ano 05 - Nº 17 - Agosto de 2010

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As áreas mais chuvosas do planeta – Autor: Cesar Pellegatti

Ano 05 - Nº 16 - Junho de 2010

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Cilaos, uma pequena cidade de pouco mais de 6.000 habitantes nas Ilhas Reunião, departamento ultramarino francês a cerca de 200 quilômetros da costa oriental de Madagascar registra 1.869 mm de precipitação¹. O ano, 1952. Pode parecer algo normal para quem vive em uma cidade do Sudeste brasileiro como São Paulo ou Rio de Janeiro constatar que ao final do ano suas estações climatológicas registraram totais de precipitação próximos aos 1.869 mm de Cilaos, caso esses totais não tivessem sido registrados entre os dias 15 e 16 de março em um período de 24 horas!


Inicialmente deve-se considerar o que é uma área mais chuvosa diante das variações e considerações temporais, ou seja, o dia, o mês, o ano, ou o período dentro de trinta anos das Normais Climatológicas? Cabe-nos aqui a apresentação de dados pluviométricos dentro dessas avaliações temporais e os controles climáticos envolvidos nessas áreas, tais como sistemas atmosféricos predominantes e topografia.

 

É fato, que a distribuição das precipitações pluviométricas ao redor do planeta apresenta enorme irregularidade. Enquanto algumas áreas apresentam totais pluviométricos extremamente reduzidos, como no hiperárido deserto do Atacama ao norte do Chile com registros de menos de 3 mm anuais, outras apresentam totais pluviométricos superiores a 10.000 mm anuais.

 

Em termos de totais anuais, Cherrapunji, localizada no Nordeste do Subcontinente Indiano a aproximadamente 1.300 metros acima do nível do mar detém o maior total de precipitação já registrado em um período de 12 meses: 26.461 mm durante o biênio 1860-1861, sendo que durante o mês de julho de 1861 foram registrados 9.296 mm. A gênese para esses totais é bastante complexa e ainda merece maiores esclarecimentos. Uma conjunção de controles poderia explicar este fato. Em primeiro lugar, a dinâmica climatológica das monções com seus ventos carregados de umidade oceânica se deslocando em direção ao continente. Em segundo lugar, a configuração do relevo regional que proporciona a formação de um corredor orográfico para os ventos úmidos que, ao se encontrarem com as elevações da cordilheira de Khasi (disposta paralelamente ao sul da Cordilheira do Himalaia), obrigam a ascensão dos ventos úmidos do oceano Índico, seu resfriamento e conseqüente condensação e precipitação. Uma pergunta que o leitor deve estar se fazendo é como a população desta localidade pode viver em condições climatológicas tão peculiares. As precipitações aí, distribuem-se de modo extremamente irregular ao longo do ano, com as maiores concentrações durante os meses de verão do hemisfério Norte, enquanto as precipitações tornam-se extremamente escassas durante os meses de inverno com totais médios em torno de 11 mm para os meses de inverno. Isso para um terreno em que escoamento pela rede de drenagem se faz de forma extremamente rápida, o que dificulta o represamento da água e seu abastecimento. Cherrapunji apresenta ainda totais pluviométricos médios de 11.633 mm para um período de 30 anos, entretanto, a discussão sobre os totais extremos de precipitação não se esgota por aí.

 

Quanto às Ilhas Reunião e sua localidade Cilaos, as características e a localização do arquipélago não deixam dúvida, trata-se de uma intensificação da orografia local pelos ventos úmidos das monções que se deslocam para a região a partir do mês de abril, uma vez que se trata de uma área formada por terrenos vulcânicos com altitudes superiores a 2.000 metros acima do nível do mar em pleno oceano Índico e o elevado aquecimento superficial de suas águas que se deslocam para as áreas de baixas pressões continentais, tanto da África como da Ásia.

 

Para uma breve comparação, as precipitações que deixaram o vale do Itajaí em Santa Catarina debaixo da água em novembro de 2008 e deixaram 133 mortos foram, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), de 283 mm durante 24 horas, entre os dias 22 e 23/11 na estação Epagri/FURB na cidade de Blumenau e, ao final do mês de novembro, seu recorde mensal histórico: 1.002 mm, enquanto as chuvas de abril de 2010 no estado do Rio de Janeiro que registraram mais de 200 mortes, tiveram seu pico máximo entre os dias 5 e 6/4, de 300 mm.

 

Outra localidade fora do eixo das monções do oceano Índico e que também apresenta totais pluviométricos entre os maiores do mundo, é Lloro na região ocidental do território colombiano, a 120 metros acima do nível do mar, próxima ao sopé da Cordilheira dos Andes em suas vertentes voltadas ao Pacífico, com médias históricas de 13.200 mm anuais. Novamente, uma série de controles deve ser considerada para explicar esses totais de precipitação. O ciclo bimodal anual da Zona de Convergência Inter Tropical (ZCIT), o elevado aquecimento do oceano Pacífico e a barreira orográfica exercida pela Cordilheira dos Andes são os controles que, atuando concomitantemente favorecem os picos de precipitação entre os meses de abril e maio e entre novembro e dezembro. Cabe ressaltar também, que as variações anuais estariam associados à Oscilação do Atlântico Sul com variação positiva para o fenômeno La Nina e negativa para o El Niño.

 

Já que falamos de áreas mais chuvosas do planeta, cabe destacar as áreas mais chuvosas do território brasileiro. Duas estão entre aquelas que apresentam os totais registrados mais elevados. Calçoene junto ao litoral do estado do Amapá apresenta, segundo dados do Instituto de Pesquisas Tecnológicas e Científicas do Estado do Amapá (IEPA), totais de precipitação em torno de 6.902 mm anuais, com concentração entre os meses de abril e maio. Esses totais estariam (a exemplo do litoral colombiano) associados essencialmente à influência da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) e a consequente formação de movimentos convectivos. A Figura 1 mostra as médias de precipitação global de acordo com as zonas climáticas do planeta, em que se verificam os elevados totais junto às zonas equatoriais.

 

Figura 1 - Distribuição média da precipitação global pelas zonas latitudinais do planeta.

Fonte.: Conti, Furlan, In: ROSS (org), p. 95.

 

Totais próximos a esses são encontrados também no vale do Itapanhaú, no município de Bertioga em São Paulo com médias históricas de 4.685 mm e um recorde para o ano de 1973 com 6.273 mm, segundo dados do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE/SP). Nesse caso, a barreira orográfica exercida pela Serra do Mar e a atuação de sistemas frontais, explicam os elevados totais pluviométricos verificados ao longo da Terceira Normal Climatológica da OMM (entre 1961-1990). Novamente faz-se oportuna outra comparação. A cidade de São Paulo com seus conhecidos problemas relacionados às inundações durante os meses da estação de verão possui médias pluviométricas de 1.411 mm no posto Lapa do DAEE, sendo que o mês mais chuvoso já registrado na cidade, o posto Santana atingiu 481 mm em janeiro de 1947, e os dias mais chuvosos que se tem notícia para a Região Metropolitana como 12 de fevereiro de 1964 e 6 de março de 1966 demonstram totais pouco superiores a 100 mm . Enfim, antes de imaginar que paulista sofre demais com clima, lembre-se que em alguns lugares do planeta, nossas tempestades de verão podem parecer uma suave brisa marítima.

 


¹ Os dados climatológicos de áreas internacionais discutidas neste artigo tem como fonte a Organização Meteorológica Mundial (OMM).


 

Cesar Pellegatti é doutorando em Geografia Física pela USP.