-- Território Geográfico Online --

Ano 05 - Nº 17 - Agosto de 2010

 -   Território Geográfico Online - A revista eletrônica onde conhecimento e aventura andam juntos! Obrigado pela visita. Assine o nosso livro.

.

Artigos Científicos

.

Busca no site

.


Território Geográfico


Território Geográfico Onlien no Orkut

   

Questão ambiental

Sociedade do contrassenso – Autor: Silvio Villar

Ano 05 - Nº 16 - Junho de 2010


Já faz muito tempo que o ser humano deixou de ser nômade. O sedentarismo a que o ser humano se sujeitou a partir do período Neolítico tem claramente como objetivo melhorar as suas condições de alimentação, em particular, e de vida, no geral.

 

Desses dias até a atualidade o ser humano passou por muitas evoluções do pensamento e dos seus conhecimentos, proporcionando confortos antes impensáveis. A questão da alimentação, da moradia e até mesmo dos regimes políticos adotados pelas sociedades humanas deixaram de ser um problema insolúvel, para entrarmos no campo das discussões sobre esses assuntos. A parte da população que tem dinheiro pode escolher a sua comida, em que tipo de moradia residirá e pode até mesmo mudar de país se o seu não for de seu agrado. Que não seja para todos, mas a humanidade chegou à fase dos supérfluos quando desenvolveu o processo industrial.

 

Toda a discussão mundial, hoje, sobre meio ambiente, faz parte desse processo. Discutimos a produção de alimentos, a poluição da água, dos solos e do ar, criamos organizações não-governamentais para salvar espécies animais em risco de extinção. Tudo muito importante. Mas o ser humano tem o péssimo hábito de não se considerar parte da natureza, acha mesmo que tudo o que aqui existe é para servi-lo. Assim, se deu o direito de extrair os recursos naturais sem permitir que a natureza se recomponha. Também se deu o direito de poluir as águas, os solos e o ar em nome do progresso e do consumo infinito de produtos capitalistas.

 

O que a grande maioria dos ambientalistas não discute é a questão do ser humano como espécie ameaçada. O homem nunca é parte da discussão como agente passivo, somente ativo na poluição e destruição do mundo. Mas existe, a meu ver, a necessidade de dividir os seres humanos em duas categorias ambientais: aqueles que exploram outros seres humanos, não deixando para eles opções de sobrevivência que não sejam exploratórias e ameaçadoras ao meio ambiente; e aqueles que são os exploradores dessa massa, parcela minúscula da população mundial, mas que detém a grande maioria dos lucros obtidos de forma lícita ou ilícita, exploratória ou não de seres humanos e da natureza, tanto faz.

 

Poderíamos questionar esse tipo de raciocínio dizendo: “as conseqüências são para todos”. E eu responderia que essa não é exatamente uma verdade. As pessoas que tem mais recursos financeiros podem comprar maior qualidade de vida, vivendo em locais afastados dos centros urbanos mais poluídos e pagando por melhores tratamentos de saúde. E aqueles que trabalham gerando as riquezas ficarão mais expostos aos problemas causados por toda essa revolução industrial, sem alternativa de moradia e, dependendo do país em que mora, com acesso bastante restrito ao sistema de saúde.

 

No Brasil, por exemplo, não existe nenhuma preocupação com a saúde da população e isso fica bastante nítido quando se visita qualquer hospital público e muitos privados no país. Se na prática os sistemas de saúde não conseguem cumprir com as suas funções, o que se dirá da teoria. Pesquisadores o país têm, instituições preocupadas também. No entanto, quando dependemos do governo federal para implantar políticas públicas de combate à poluição e às suas conseqüências, falamos de uma situação um tanto quanto delicada.

 

Por exemplo, a Organização Mundial da Saúde instituiu em 2008 um novo padrão para a segurança da saúde da população que vive em áreas urbanas, reduzindo o limite tolerável para poeiras grossas e finas na atmosfera. Hoje no Brasil se mede apenas o nível de poeiras grossas, a chamada MP10, em claro contrassenso com a OMS, que considera as poeiras finas muito mais perigosas para a saúde humana do que as grossas. Isso porque essas partículas menores chegam mais facilmente à corrente sanguínea, causando aterosclerose, arritmias, aumento de pressão arterial, trombose aguda e infarto do miocárdio. Portanto há forte relação entre esses poluentes e doenças cardiovasculares e respiratórias que podem levar à morte.

 

Dois anos se passaram e ainda não existem sequer estudos complementares para adaptação desses novos limites para o Brasil. Talvez porque para que isso aconteça seja necessário controlar as emissões das indústrias e os fluxos de automóveis e também melhorar a qualidade dos combustíveis. Todas essas medidas são necessárias e benéficas ao ser humano, mas muito mal vistas pelo público em geral, em especial no período eleitoral em que vivemos.

 

É evidente que o ser humano ainda não está preocupado de verdade com o seu semelhante e nem com o meio ambiente em que vive. Isso fica claro no exemplo brasileiro, mas em muitos lugares do mundo também é assim. Empresas capitalistas que se preocupam com o meio ambiente só o serão enquanto isso der lucro, afinal é para isso que elas existem. E a grande maioria da população mundial, que mal ganha o suficiente para se alimentar corretamente, não se preocupará com meio ambiente enquanto tiver de se preocupar com o que colocará no prato de seus filhos no jantar. Creio que está mais do que na hora de nos preocuparmos com um meio ambiente habitado por seres humanos, com todos os seus problemas e deixarmos um pouco de lado as discussões sobre que mundo deixaremos para nossos filhos. Podemos e devemos também nos perguntar: que humanidade deixaremos habitando esse mundo? E em que condições? Não peço para que abandonemos a causa ambiental. Peço apenas que incluamos o ser humano nela.